• Gláucio Bezerra Brandão

[AC 118] Instrução como um serviço (Parte I)

Instrução como um serviço (Parte I)

(AC publicada em 25Nov20)


Depois de navegar à deriva por várias semanas, eis que Mathias aporta seu bote salva-vidas em uma ilha. Exausto, desidratado, pula do bote levando apenas o único instrumento que conseguira salvar do grande navio a vapor que fora a pique. Era Mathias quem alimentava a caldeira do Benjamim Guimarães (https://pt.wikipedia.org/wiki/Benjamim_Guimar%C3%A3es) com sua inseparável enxada.


Anda um pouco na areia, desaba e só acorda quando a água fria bate em seus pés duas horas depois, para avisá-lo que o bote se foi e que ele seria o próximo… Junta as últimas forças, levanta e vai atrás de água e alimentos. Encontra um coqueiro inclinado, sobe, derruba seus frutos e abre-os com ela, a enxada. Tem a primeira alegria e diz a si mesmo: “Sabia que minha amiga teria alguma serventia!”.


Criei este enredo com o intuito de reforçar ainda mais meu ponto de vista apresentado em Ciência, tecnologia e inovação: ordem errada! (https://nossaciencia.com.br/colunas/ciencia-tecnologia-e-inovacao-ordem-errada/), onde defendo que - nos dias atuais em que a tecnologia mostra-se pujante - fazer Ciência seria muito mais interessante, motivador e viável, se ela fosse “puxada” pela Inovação, algo como Ciência orientada pela Inovação (acho que em inglês seria innovation-driven science).


“Linkar” Ciência, Educação, Inovação e Instrução e ainda propor um modelo tupiniquim eficiente em um único artigo de 5 minutos de leitura é um grande exercício de ousadia e criatividade, o qual não tenho condições de fazer sozinho. Porém, utilizando a Redução aos Princípios (https://nossaciencia.com.br/colunas/reducao-aos-principios-aplicada-aos-negocios/), consigo reduzir tudo a seus blocos primordiais, apresentar o começo do raciocínio nesta aula condensada e fechá-lo na próxima. Peço então que me acompanhem e, em rede, aprimoremos o modelo. Será divertido!


Diferenciando Educação de Instrução


Educação (Wikipedia): “Processo de facilitar o aprendizado ou a aquisição de conhecimentos, habilidades, valores, crenças e hábitos. Os métodos educacionais incluem o ensino, treinamento, narração de histórias, discussão e pesquisa direcionada. A educação geralmente ocorre sob a orientação de educadores, mas os alunos também podem se auto-educar”. Instrução (Oxford Languages): “Substantivo feminino: 1) Métodos de transmissão de conhecimento ou formação de determinada habilidade; ensino, treinamento; 2. Educação formal, fornecida por estabelecimentos de ensino”.


Onde quero chegar com estes conceitos? Que as instituições de ensino, nomeadamente técnicas e superiores, deveriam sofrer um processo de ressignificação, passando a focar com maior frieza na formação instrucional (mais objetiva), e menos na educação. Isso resolveria muitas broncas culturais pelas quais passamos hoje, onde a doutrinação está suplantando a formação. Não entrarei em pautas polêmicas. Como quero apenas montar uma proposta de modelo de instrução, foi necessário tocar nestes conceitos. Vamos a outro conceito!


Servicificação


Do site da revista Consumidor Moderno (https://digital.consumidormoderno.com.br/companhia-indispensavel-ed254/), pego o conceito:


“Uma das consequências mais evidentes do protagonismo da geração millennial foi desvendar a formação de uma nova mentalidade: o fim do “ter” e o início da era do “ser”. No fundo, Consumidor Moderno defendeu a ideia de um produto que poderia ser oferecido como serviço, e não apenas isso: tudo realmente poderia ser um serviço. Na ocasião, em 2016, a revista chamou essa ideia de “servicificação”. A Uber, e a maneira como a empresa mudou a relação das pessoas com os carros, é um dos principais exemplos dessa tendência. No entanto, é possível estender o conceito para praticamente todos os tipos de produtos materiais: da oferta de softwares (hoje vendidos como serviços pagos todo mês) até cereais matinais, de cosméticos até mesmo à oferta de casas de veraneio.”


Conceito apresentado, não é difícil estendê-lo à Educação. Isso é o que muitas universidades americanas têm feito, o chamado Education as a Service (EaaS) (Education as a Service?), pelo qual “os alunos avaliam suas competências atuais, as competências necessárias para conseguir o emprego de sua escolha e trabalham com a organização de ensino superior na lacuna existente”. Acho bastante prático!


A Ilha dos Cavadores com a Mão


Voltando ao nosso náufrago… Outro dia, bucho cheio, tendo descansado um pouco, Mathias encontra-se com 50% da carga. Resolve conhecer a ilha. Aventura-se mata adentro e, antes do que esperava, esbarra em pilhas de cascas que ele reconhece como de inhame. “Massa!”, grita alto o bastante para promover uma revoada de pássaros, e desmaia de susto quando uma mão lhe toca o ombro. Dois dias depois, acorda na cama de uma casa em um vilarejo, limpo e cheio de bandagens naturais sobre as queimaduras do sol. Fica feliz por não ter ido parar num caldeirão. Uma mulher adentra o quarto e pergunta como se sente (Em todo filme de Hollywood, todo mundo entende todas as línguas, né não? Aqui não será diferente!). Responde agradecendo e quase em ato contínuo pergunta por sua inseparável enxada, para a qual a mulher aponta à entrada da porta, respondendo: “Ficou te esperando acordar!”.


A segunda pergunta é óbvia: “Onde estou?”. A anfitriã completa: “Na Ilha dos Cavadores com a Mão”. Para encurtar a estória, o Conselho da Ilha aceita o forasteiro, dá a ele um pedaço de chão e uma regra básica: comerá do que plantar. Nada mais simples do que instruções com verbos claros.


Plantando inhame


Os habitantes da ilha vivem da pesca e do plantio pouco diversificado, cujo principal é o inhame. De sol a sol, abrem valas com as mãos, colocam seus tubérculos, recobrem e irrigam com cuias feitas de cabaça. Batatas também são cultivadas. Em suma, os tubérculos são as commodities da ilha. Os ilhéus dedicam-se ao cultivo, cujas técnicas, assim como as da pesca, são trabalhadas na Escola da Ilha.


Observando o dia-a-dia, Mathias pensa: “já que sou estrangeiro, estarei sozinho; tenho que ‘desenrolar’ uma vantagem competitiva, do contrário morrerei de fome”. E tem uma ideia, também óbvia: “vou usar a enxada”. Pensado e feito: consegue plantar o inhame em um décimo do tempo que o mais rápido plantador da ilha. Com este desempenho, faz o trabalho de 10 plantadores e cobre, no mesmo tempo, áreas 10 vezes maiores. Quando se dá conta, percebe que precisa contratar pessoas para colher o inhame, do contrário, perderá a safra. Vai ao vilarejo e espalha um edital de convocação por trabalhadores, cujo pagamento pelo serviço será de 20% do que colherem, com um adendo: aqueles que souberem plantar com enxada, terão seus contratos ampliados para o pós-safra, além de receberem um adicional por plantio. Consegue os trabalhadores. Nenhum com habilitação em enxada.


Diversificação


Safra colhida, montanha de inhame à frente, despede-se do último trabalhador e senta para descansar. Olha para as marcas cicatrizadas do corpo e tem um momento eureka: “aquelas bandagens eram feitas da casca do inhame, as quais encontrei jogadas quando aqui cheguei”. Começa a pensar sobre o que mais poderia obter do vegetal: fibra para tecidos, filtro para água, uso medicinal. Pensa também que terá de desenvolver técnicas para conservar o inhame, cuja atual abundância o deixará livre para outras atividades, já que alimento não será mais problema. Conclui sobre sua amiga enxada: “Tenho que reproduzi-la. Ela pode transformar a ilha”.


A Escola da Ilha


Tendo provado para si que a enxada é o futuro iminente, vai à Escola da Ilha falar sobre seu insight, na tentativa de convencer o corpo docente de que a enxada aumentará a produção do inhame e, com seu superávit, a produção de bandagens, remédios, filtros, e tecidos deixará de ser rara, ajudando em muito os ilhéus, fora o desespero da entressafra, que poderá ser eliminado com o correto armazenamento. Para isso, a Escola teria de ampliar um pouco seus ensinamentos de modo a contemplar a formação de mestres ferramenteiros(as), costureiras(os), curandeiros(as), nutricionistas que desenvolvessem processos de estocagem. Na visão dele, nada mais apropriado do que docentes de uma escola para esta tarefa, já que são versados em pedagogia, portanto treinados para aprender e ensinar.


Após ouvir o forasteiro, o corpo docente reúne-se e algum tempo depois emite o parecer:


“Nós, reunidos quando o sol estava a um quarto do céu, no sétimo dia da oitava época pós-plantio do Inhame Mor, chegamos às seguintes considerações: i) Vivemos bem até hoje, com os conhecimentos e a forma de ensinar que nos foi passada por nossos ancestrais; sempre fizemos desse jeito, pois mostra-se muito eficiente. ii) Criar novos ensinamentos exigiria uma ocupação mental extra, para a qual não vemos motivo, pois tudo tá rodando ‘belezinha’. iii) Não reconhecemos que haja autoridade em um forasteiro, recém-chegado, cujos processos que implantou não foram validados. Como pode um estrangeiro, desconhecedor e afrontador de nossa cultura, ousar modificar o status quo reinante, perturbando a paz ao deslocar trabalhadores de outros cultivos para benefício próprio, aumentando em muito sua colheita além de provocar a ira de ilhéus respeitados, cumpridores de seus deveres? Assim, com base nestes argumentos irrefutáveis, a Escola da Ilha recusa-se a modificar sua estrutura pedagógica e rejeita qualquer tipo de intervenção em sua forma milenar de ensino, por quem quer que seja. Exceções podem ser avaliadas apenas em caso de catástrofes. Salvo melhor juízo, esse é nosso parecer”.


E a porta foi fechada para a enxada. Guardem esta frase.


A Inhame Corporation


Mathias, um sobrevivente testado ao extremo, não se deixaria vencer. Pelo título desta seção, está claro também que não desistiu de sua empreitada. Apenas “pivotou” a abordagem. Assim, não percam o próximo episódio, ou melhor, a próxima aula condensada, quando o homem dá a volta por cima, cria o IaaS, Instruction as a Service, viabiliza a Inhame Corporation e ainda ajuda a Escola da Ilha, cujos dias estavam contados. Encontro vocês lá!

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